Doula, você conhece?

Como comentei no meu último post, consegui meu tão sonhado parto (a)normal. Não sem antes fugir de uma médica cesarista. Fugi por puro medo da anestesia, do corte, da recuperação, da cirurgia em si. Fugi porque nasci de uma cesárea sem anestesia e passei a vida toda escutando como minha mãe tinha gritado (e sofrido!) na hora que cheguei ao mundo.  Fugi por instinto!

Mas não consegui escapar do corte, do soro, do médico empurrando minha barriga pro bebê descer mais rápido(?). Enxergar como minha mãe e eu sofremos sem necessidade é tão triste. Tão arrasador. E se nossos médicos e suas equipes tivessem sido mais humanos, será que não teríamos vivenciado essa cesárea e esse parto muito mais felizes? Acredito que sim.

Na internet descobri a existência das doulas. Doula é uma palavra de origem grega, que significa “mulher que serve”, “escrava”, por tanto não é uma modalidade nova. Eram as mães, avós, tias, amigas que auxiliavam durante o parto. Doulas sempre existiram, mas perderam seu espaço no novo sistema obstétrico.

Os nascimentos passaram a acontecer dentro de hospitais, onde ginecologistas obstetras, enfermeiras e pediatras têm seu papel específico no cenário do nascimento. Mas dentro desse sistema ficou uma lacuna: quem cuida do bem estar dessa mãe que está dando a luz? No ambiente hospitalar, com um grande número de pessoas desconhecidas é comum aumentar o medo, a dor e a ansiedade.

A doula supre esse papel. Ela se encarrega de suprir a demanda por atenção e afeto, que não cabe a nenhum outro profissional dentro do ambiente hospitalar. Além disso, a doula fornece informações à parturiente sobre o desenrolar do trabalho de parto e parto, sobre intervenções e procedimentos necessários, para que a mulher possa participar, de fato, das decisões acerca das condutas a serem tomadas durante o nascimento.

Antes do parto, a doula orienta o casal sobre o que esperar do parto e pós-parto, mostrando as opções que o casal tem para o nascimento do bebê. Não cabe a doula julgar as escolhas da mulher e de seu companheiro (quando houver), desde que eles conheçam a vantagem e desvantagem de cada opção.

Algum tempo atrás, algumas mulheres sentiram que as doulas precisavam entrar no cenário do parto novamente, ajudando a mulher a encontrar a posição mais confortável para o trabalho de parto, mostrando formas eficientes de respiração e propondo medidas naturais pra aliviar a dor: como banhos, massagens, relaxamentos; e acima de tudo, encorajando a mulher. Servindo de proteção para que a mulher tenha seus desejos, sua privacidade e seus direitos respeitados.

Cada vez que me aprofundava nas leituras sobre as doulas, mais vontade me dava de fazer parte dessa mudança em prol do feminino. Durante alguns meses pesquisei, até que recebi um e-mail falando sobre um curso aqui em Fortaleza, era o último dia pra fazer a inscrição. Deu tempo!

Foi o curso mais rico que já fiz na vida. Sorri, chorei, conheci e aprendi sobre evidências científicas, sobre tipos de parto, sobre as recomendações da OMS (e estamos bem longe do modelo!), sobre mitos da gestação e do parto, sobre como receber um recém-nascido com todo respeito que ele merece, ganhei amigas lindas. Conquistei um trabalho novo, que eu gosto, admiro, que sim! vai transformar o mundo – de algumas mulheres, quiçá todas – que me faz feliz e que vai fazer diferença na vida do meu filho, da esposa dele e da minha filha, se eu dia eu tiver uma!

Sem a devolução do protagonismo, não existe humanização do nascimento. Sem que as pacientes possam livremente escolher a posição para parir, sua companhia, o local, a roupa, as tradições e suas inúmeras vontades, apenas estaremos reproduzindo uma história de abusos e interferências desnecessárias, que não tem mais cabimento num mundo que se propõe democrático e igualitário.

(JONES*, 2004, p.179)

Ívna Pinna

*Ricardo JONES é médico, com especialização em ginecologia, obstetrícia e homeopatia. Trabalha em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e faz parte do colegiado nacional da ReHuNa – Rede pela Humanização do Parto e Nascimento.

13 Comentários

  1. Olá!
    Nesse momento tão especial tudo deve acontecer com muito amor!
    Meu primeiro parto foi normal, o segundo fiz cesária mesmo ser querer fazer, pois meu bebê, hoje com 1 ano e 11 meses estava atravessado na barriga. Na hora da cesária ele virou de cabeça para baixo. Acredita?
    Linda postagem viu?
    Parabéns!
    Tenha uma ótima noite!
    Com carinho

    http://femmedigital.blogspot.com.br

  2. adorei a historia da doula
    parabens

  3. Ívina, não resta dúvida que esse é um trabalho engrandecedor e importante, tanto para a Doula quanto para a nova mamãe. Acredito até que seja um acolhimento também ao papai que está por perto, muitas vezes, sofrendo com a sua esposa e que também precisa de um consolo.

    Eu tive uma cesárea programada, antes dos 9 meses completo. Segundo a obstetra minha filha estava sentada e não iria virar a tempo. Como marinheira de primeira viagem bateu o medo. O problema seria que minha Maria iria nascer no fim de ano. Obstetra estaria de recesso, se viesse o dia dela nascer naturalmente eu iria cair nas mãos de plantonistas que não a acompanharam durante o pré-natal, foi isso que ela avisou. E quem estaria lá nessas horas. Minha vontade era que quem me acompanhou durante todo o tempo estivesse presente pra eu me sentir mais segura.

    Meu marido sempre foi muito questionador e com isso, no oitavo mês procuramos outra obstetra pra saber se realmente minha pequena não iria virar. Disse com outras palavras que não. Antigamente até virar uma criança as parteiras faziam, não é verdade? Mas não quis arriscar.

    Voltei pra minha médica e depois do nascimento isso causou um constrangimento. Acho que se comunicaram pois ela se fechou pra gente mais tarde. Não importa.

    Maria nasceu de cesárea, e já que era parto programado, escolhi a data. Graças a Deus o pós parto foi tranquilo com uma boa recuperação. De qualquer forma ficamos chateados e amargamos muito tempo certas coisas. Hoje não gostamos de lembrar. Outra coisa foi meu marido ter querido ver o parto e não derem o mínimo de atenção pra ele. A primeira filha, uma coisa tão normal em partos e não fizeram caso. Mas passou e minha filha está aí com saúde graças a Deus.

    De repente, se tivéssemos uma Doula por perto, tudo seria diferente. Mais acolhimento, mais amor e mais atenção.

    Parabéns pelo empenho e que Deus a abençoe a sempre continuar nesse trabalho lindo e tenho certeza, gratificante.

    Cris, parabéns pelo quadro. Enriquecedor.

    Beijos às duas.

    1. Oi Teresinha, muito legal seu relato. Antigamente as parteiras obtinham algum sucesso “virando” os bebês. Hoje em dias os profissionais desconhecem esse método, são poucos os que fazem no Brasil. Existem métodos mais naturais e existe um método mais intervencionista (feito no hospital com GO).
      Outra maneira de nascer, hj praticamente desconhecida pelos profissionais é o parto pélvico. A grande maioria dos profissionais não se sentem seguros em acompanhar um parto de bebê sentado, já que na faculdade eles não tem essa vivência/experiência. Mas são partos possíveis de acontecer. Se vc procurar na internet tem vídeos de bebês nascendo tanto com o pezinho, quanto de bumbum, com equipes humanizadas. Eu acho lindo! rsrsrs
      Eu conheço uma moça, que o bebê virou com 40 semanas, com métodos naturais. Em alguns relatos que li, o bebê virou do dia do parto.
      Outro ponto importante que vc citou foi a questão da participação do pai na hora do nascimento, muitos gostariam de participar mais, mas o modelo hospitalar que temos hj não é muito favorável a presença deles. Muitas maternidades até aceitam o pai na hora do parto, mas o pai acaba sentindo que está atrapalhando, num assunto que não pertence a ele, quando na verdade ele é super importante pra mulher, pro bebê. Fora que é uma emoção participar do nascimento dos filhos né?!

      Na próxima gestação, não desista do parto. Leia, se informe bastante!
      Gostei muito da sua participação!
      Beijão

      1. É Ívina, olha que maravilha o bebê virar no ultimo dia antes do parto. Era isso que esperava também. Mas como a cesárea falou mais alto (pra eles) eu fiquei com medo. Poderia ter esperado mais. O problema todo foi o tal do recesso que acho que a obstetra não ia abrir mão.

        Acho que falta muito acolhimento por parte dos médicos. Desses que a gente vê em novelas que abraçam a causa e não sabemos se existem.

        Quanto a assistir o parto é uma coisa que meu marido realmente não gosta de lembrar. Ele ficou chateadíssimo, não por não assistir mas por não terem nem voltado pra dar a resposta se ele podia ou não. E ele PODIA.. tenho certeza.

        Falta abertura, falta diálogo, falta respeito, falta olhar o paciente como único e não apenas como mais um. E claro, falta muita informação de nossa parte.

        Que bom que hoje existem outras alternativas para essa assistência toda. As Doulas por exemplo. E que elas sejam sempre assim: acolhedoras das necessidades e carências das mamães, principalmente.

        Beijos, obrigada pela resposta e pela visita ao Bolhinhas…Seja sempre bem-vinda!

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